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Luiz Gonzaga e o Cordel do Fogo Encantado

Autor: Paquito

Fonte: Revista Terra Magazine 

Postado em 18 de dezembro de 2006 


 

          De Luiz Gonzaga, Darcy Ribeiro dizia: "é o nosso Homero". Nenhum artista teve a capacidade de representar uma região do país (no caso, o Nordeste) como ele. Se formos falar da música do Sudeste na época dos anos dourados da canção brasileira, temos de citar Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Pixinguinha etc. Só a citação do nome de Gonzaga, em que pese a importância de Jackson do Pandeiro, dá conta do que se chamaria nordestinidade. Tanta grandeza às vezes assusta, e é natural que surjam vozes discordantes do artista e sua obra. 

          Umas dessas vozes é a do cantor Lirinha, integrante do grupo Cordel do fogo encantado que deu às seguintes declarações à Pedro Alexandre Sanches, da Carta Capital: "o que a gente mais escuta é que Asa branca é o hino do Nordeste. Mas adotá-la como hino é submeter uma população, é forçar a juventude a repetir por gerações e gerações que braseiro, que fornalha, nem um pé de plantação. Nem um pé de plantação? Se existe hoje a visão de uma turma que mora no Sertão e é o contrário disso, que acha que deve haver vários pés verdes, que a irrigação deve ocorrer, que deve ser quebrado o coronelismo? Luiz Gonzaga sabia fazer músicas belíssimas, mas na obra dele há a perpetuação dessa submissão. E é entendido como um hino do Nordeste?". O colega de grupo de Lirinha, Clayton, arremata: "É datado, não é atemporal. Pode representar um momento, uma época, mas não serve pro futuro".

 

Cordel do Fogo Encantado

Divulgação

 

          Vamos, primeiro, à autocrítica do próprio Gonzaga, relatada por Gilberto Gil em entrevista a Augusto de Campos, em 1968, publicada no livro Balanço da bossa. Gil: "Falando de Procissão, ele dizia: - Puxa, Gil, como eu gostaria de ter feito essa música.(...) Vocês hoje reclamam, vocês falam da miséria que existe no Nordeste, da falta de condições humanas. Eu não podia, eu falava veladamente, eu era muito comprometido, muito ligado à Igreja no Nordeste. Eu tinha compromissos com os coronéis, com os donos de fazenda, que patrocinavam minhas apresentações. Eles eram o meu sustento. Eu não podia falar muito mal deles".

          A fala de Luís Gonzaga é corajosa quando toca nas suas limitações enquanto artista profissional, mas a obra (e é à obra que Lirinha e Clayton se referem) responde de maneira mais completa e ampla às críticas feitas pela turma do Cordel. No que diz respeito apenas a Asa branca, de Gonzaga e Humberto Teixeira, o drama da seca, algo bem comum no Nordeste e não uma fantasia, como talvez faça supor a fala de Lirinha, é descrito de maneira a um só tempo poética e crua ("a terra ardendo qual fogueira de São João", por exemplo) e, por isso, tão forte, que a canção alcançou o status, não à toa, de hino. Não parece ser intenção dos autores perpetuar o drama da seca e a submissão. Provavelmente Lirinha não ouviu o resto da música que contém estes versos, aliás, antológicos: "quando o verde dos teus olhos/ se espalhar na plantação/ eu te asseguro, não chore, não, viu/ que eu voltarei, viu, meu coração", e portanto, a esperança de que a situação não prevaleça.

          Há uma outra canção de Gonzaga, esta em parceria com Zé Dantas, A volta da asa branca, que já no título refere-se à Asa branca, cuja letra diz: "rios correndo, as cachoeiras tão zoando/ terra molhada, mato verde, que riqueza/ e a Asa Branca, à tarde canta, que beleza/ ai ai, meu povo alegre, mais alegre a natureza".

          No tocante à perpetuação da submissão, em Vozes da Seca, de Gonzaga e Zé Dantas, há a seguinte estrofe: "seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ pelo auxílio dos sulistas nessa seca do sertão/ mas doutor, uma esmola pra um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão/ dê auxílio ao nosso povo/ encha os rios de barragem/ dê comida a preço bom/ não esqueça a açudagem/ livre assim nós da esmola/ que no fim dessa estiagem/ lhe pagamo inté os juros/ sem gastar nossa coragem". Essa é a obra que perpetua a submissão? E o que dizer, falando em auto-estima e consciência da nossa identidade, de Imbalança? "Você tem que viver no sertão/ pra na rede aprender a embalar/ aprender a bater no pilão/ na peneira aprender peneirar/ ver relampo no meio do trovão/ e virar folha seca no ar/ para quando escutar meu baião/ imbalança imbalança imbalançá".

          Sobre Gonzaga ser datado, os procedimentos estéticos de Gonzaga e seus parceiros são tão modernos que suas canções não apenas representam o Nordeste, mas são o Nordeste; da mesma maneira, as canções de Dorival Caymmi são a Bahia. Aliás, Gonzaga e Caymmi inventaram mesmo as regiões de que falam. O trio zabumba-triângulo-sanfona, tão comum e disseminado que parece ter saído da tradição, foi uma invenção de Luiz Gonzaga. Pra Gonzaga, citando Drummond, ficou chato ser moderno, ele é eterno, o que não quer dizer que não deva ser criticado. Só que a crítica tem de ser feita, para se sustentar, com um mínimo de conhecimento da tradição a que se contrapõe, e lucidez para separar o homem da obra, a postura ética da pertinência estética. A atuação política de Gonzaga passou, o mestre se foi, ficaram as lições.

 

Paquito é músico e produtor

 

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