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Divulgando a Vida e a Cidade do Gonzagão - Exu-PE


espaçador

Joquinha Gonzaga, em 22/05/2005

Para dá inicio ao novo projeto do site ReidoBaiao.Com.Br, abrimos um espaço onde apresentaremos entrevistas com os artistas que receberam alguma influência de Luiz Gonzaga. De imediato, fizemos o convite ao sobrinho do eterno Rei do Baião, Joquinha Gonzaga, para nos ajudar e iniciar esta caminha.
A entrevista se deu no Parque Asa Branca, na Cabana do Rei, no dia 22 de Maio de 2005. Nela, ele fala, um pouco, de como começou sua carreira, os momentos marcantes de sua história, da Fundação Vovô Januário e do próprio site ReidoBaiao.Com.Br, além de outras coisas.

 

ReidoBaiao.Com.Br – Joquinha, como foi seu início no forró? Você recebeu alguma influência de seu Tio Luiz Gonzaga?
Joquinha Gonzaga – Minha história foi até interessante. Eu, com 14 anos, não tinha conhecimento nenhum de sanfona, eu não tinha aquela vontade, aquele interesse, para mim, não tinha vantagem nenhuma. Quando de repente, Tio Gonzaga, que tinha necessidade, e já estava observando que na família não tinha nenhum sanfoneiro, descobriu em mim um, por ser o sobrinho mais velho, filho de uma irmã dele, me achou com cara de sanfoneiro e cabeça de sanfoneiro, ele disse: “é você mesmo!!!”. Ele chegou na minha casa, no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias, Santa Cruz da Serra, me lembro até hoje, ele chegou no meio da semana, de repente, com minha tia Helena e Rosinha, entrou de casa adentro e disse: “Opa, boa noite, olha eu vim trazer aqui uma sanfona. É uma sanfona de 8 baixos e é pra você Joquinha, quero que você aprenda a tocar essa sanfona, que essa sanfona de 8 baixos foi aonde meu pai criou todos os filhos, e eu queria que você também seguisse isso”. Aí eu comecei a me interessar, minha mãe me incentivando, todo dia, cantarolando algumas músicas, e eu fui aprendendo. Dentro de um ano eu já sabia tocar muito bem a 8 baixos. Tio Gonzaga, por viajar muito, de vez em quando, quando ele tava de folga, ele ia lá no sítio e me botava pra tocar, e achava interessante, foi aí que ele sentiu que eu poderia ser um sanfoneiro. E o que foi que ele fez? Me deu uma sanfona de 80 baixos, um acordeom, e tirou a sanfona de 8 baixos, e assim eu comecei a desasnar também no acordeom. Comecei a tocar. Depois ele me deu uma sanfona de 120 baixos, e fui me cevando, como diz o outro, eu fui me alimentando com a música, assim eu fui devagarinho. Comecei no Rio de Janeiro tocando naquelas escolas, naqueles clubes lá de meu bairro, e até que eu comecei a viajar com ele, eu tinha uns vinte e poucos anos. Depois que eu sair do quartel, eu comecei a viajar, em 75 isso, com Luiz Gonzaga, e dentro de dois meses eu conheci o Nordeste todo, juntamente com o Trio Nordestino e Luiz Gonzaga, na época era sucesso aqui no Nordeste. Eu tive a felicidade de conhecer o Nordeste, de tocar ao lado de Luiz Gonzaga, ele me ensinando. Ele quando estava tocando eu tocava triângulo, e depois ele me dava a sanfona, e ele tocava o triangulo, e assim a gente fazia muitos shows pelas cidades do Nordeste e eu fui desasnando. Eu nunca comprei sanfona, todas aquelas sanfonas que Tio Gonzaga ia dar pra alguém ele dizia pra mim: “Joquinha, eu estou com uma sanfona ai, e eu vou dar pra alguém, se você quiser, dê uma olhadinha pra ver se é melhor que a sua”, eu ia lá, olhava, se fosse melhor eu pegava, se num fosse eu ficava com a minha mesmo, e assim foi minha vida com Luiz Gonzaga. E hoje eu sou, toda vida eu vivi de música, vivo da música com sacrifício, sofrendo, porque quem luta com cultura sempre é difícil, mas foi Luiz Gonzaga quem me influenciou, muito. E graças a Deus eu tenho esse orgulho e essa história pra contar pra todo mundo.

Joquinha Gonzaga falando sobre seu Tio, Luiz Gonzaga
Joquinha Gonzaga falando sobre seu Tio, Luiz Gonzaga.


ReidoBaiao.Com.Br – Nós sabemos que a vida de artista, principalmente aqui na nossa região é cheia de dificuldades. Como foi a sua caminhada desde seu primeiro trabalho até esse último, seus altos e baixos como artista?
Joquinha Gonzaga – Na verdade é uma história meio comprida, mas eu vou tentar resumir. Quando eu tava tocando com Luiz Gonzaga eu sempre pensava que ele nunca ia morrer, então pra mim era uma felicidade, tudo era bonito, tudo era normal. Tio Gonzaga sempre ajudando a gente. A gente viajando daqui, viajando de lá, pegando avião daqui, pegando avião de lá, dormindo nos melhores hotéis, comendo das melhores comidas. E eu achava que era pra toda a vida, e nunca me esforcei pra tentar fazer alguma coisa como artista solo. Quando, de repente achei que deveria voar um pouco. Lembro que eu trabalhava com Tio Gonzaga, em 86, e pedi as contas, aqui em Exu, no Parque Aza Branca, lembro até hoje, aqui no Casarão, cheguei e disse: “Tio Gonzaga, eu vou embora!”, ele disse: “Ué? Vai embora pra onde?”, eu disse: “Eu vou pro Rio de Janeiro. Lá pra casa. Que meus pais ainda moram lá, minha família toda, vou embora!”, “Fazê o que no Rio de Janeiro?”, eu disse: “Vou tocar naqueles forrós lá”, “Tocar naqueles forrós pra não ganhar nada? Ficam explorando os sanfoneiros”. Eu disse: “Não. Mas eu toco ou arrumo um trabalho qualquer”, “Mas por que você quer ir embora?”, Eu disse: “Tio Gonzaga é porque”, eu até menti pra ele, eu falei: “Não é porque eu tenho medo do senhor!”. Foi uma desculpa furada danada, eu num falei a verdade, talvez se eu falasse seria até melhor. Ele tentou arrancar alguma coisa de mim, ficou chateado, não queria, porque ele gostava muito de mim, e disse: “Faça o último show comigo, lá em Minas Gerais, em Itaobim e de lá você vai embora!”, eu disse: “Está certo!”... Chegando nesse show, nós tocamos, e ele pegou o cachê todinho, eu lembro que era uns 30 mil, sei lá, eu sei que era dinheiro pra danar, me deu esse dinheiro. Eu peguei esse dinheiro e fui pra o Rio de Janeiro, e Tio Gonzaga veio pra Exu. Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, a metade desse dinheiro eu produzi um trabalho independente, chamei João Silva, que era o produtor dele, no Rio de Janeiro, e compositor, arrumamos todos os músicos, que eram os mesmos que gravavam com Tio Gonzaga, maestro e tudo, e acabei fazendo um disco, na época, o primeiro disco, em 86. Eu peguei esse primeiro disco, e lá era “Forró, Cheiro e Chamego”, muito bom, e João Silva mandou pra Tio Gonzaga. Ele disse: “Rapaz, eu tinha um artista em casa e não sabia!”. A partir daí, eu fiquei com Tio Gonzaga como artista, já não fiquei por trás das cortinas. Me juntei a ele em 87. Quando foi em 88 ele me chamou pra participar do disco dele e eu participei cantando “Dá Licença pra Mais Um” (cantarola a música), em 88. Só curtir a vida, o mundo artístico, independente, junto com Tio Gonzaga, uns dois anos. Tio Gonzaga já estava doente e começou a me apresentar como herdeiro cultural da família, não para ser o Rei do Baião, mas curti pouco. Quando Tio Gonzaga morreu foi aonde veio cair tudo, porque antes eu pensava que Tio Gonzaga nunca ia morrer, era eterno, aliás, na história ele é eterno, mas infelizmente, na matéria Deus levou. E eu fiquei voando, meio que perdido, porque eu sempre me sentia forte ao lado de Tio Gonzaga. E os grandes empresários e alguns artistas, que viviam com Tio Gonzaga, começaram a sair fora quando ele morreu, quer dizer, a gente vê que todos eram por interesse. Foi aí que comecei a sentir dificuldade no mundo da música, porque quem vive de cultura é assim, Tio Gonzaga também sentia essa dificuldade. Mas até hoje as portas se abrem porque eu falo no nome do meu Tio, se eu não tivesse o nome de meu Tio na frente, eu acho que eu já tinha desistido. Mas eu sofro, mesmo assim, com as decepções, vejo as pessoas fecharem as portas, dizerem que forró pé-de-serra não tocam, só tocam Música Popular Brasileira, se não, que tocam só certas bandas, e a gente vai vencendo as barreiras, tentando, porque o forró corre no sangue. Eu, a essas alturas, não posso mais parar, nem ir pra trás, tem que ir pra frente nem que não queira, aos trancos e barrancos e eu estou indo. Eu sou vitorioso, graças a Deus, tocando minha sanfoninha simples, sem magoar ninguém, e dando minhas cacetadas! (gargalhadas).

ReidoBaiao.Com.Br – Em relação ao seu último CD, “Sanfoneiro da Serra do Araripe”, qual o tipo de música e se houve a participação especial de algum artista?
Joquinha Gonzaga – Eu sempre procurei fazer meus trabalhos bem autêntico, sem fugir as minhas raízes, então eu fiz esse Cd, “Sanfoneiro da Serra do Araripe”, pra mostrar ao povo o verdadeiro pé-de-serra. Você sabe que o forro pé-de-serra nasceu aqui na serra do Araripe, na região do Exu, começando por meu avô, Januário. Meu avô Januário tocava em todas as “bribocas*” aqui nesse pé-de-serra, é tanto que meu Tio, minha mãe sempre contavam que, e o povo daqui sempre fala da época, festa que não fosse tocado por Januário não era uma festa boa. Então, aniversário, batizado e casamento era tocado pelo Januário. Teve muitos sanfoneiros de 8 baixos bons aqui, agora Januário sempre foi o da frente. E Tio Gonzaga sempre nasceu e se criou junto dessas músicas, desses bailes, na época era samba. Tio Gonzaga sempre tava perto, aprendendo também, e chegou um ponto de Tio Gonzaga ajudar também vovô Januário, e sempre diziam: “Não. Vai ter um samba lá no pé-da-serra!!”, “Não. Vai ter num sei-o-quê lá no pé-da-serra!!”. Quando Tio Gonzaga foi pra o sul, que começou a tocar lá naquelas boates, ele só tocava músicas importadas, internacional, valsa, tango, bolero, ele tocando acordeom, e até aí ele num tocava nada de forró. De repente “chegou” algumas pessoas do Nordeste, universitários da época, que “começou” a cobrar, sempre passavam lá, viam ele tocando, davam um dinheirinho, colocavam no pires, e começaram a cobrar: “Ei Gonzaga, porque você num toca uma musiquinha daquelas nossa lá do sertão?”. Tio Gonzaga nunca teve interesse, porque o povo num conhecia, num ia acontecer nada, mas de tanto o povo ameaçar: “Olha, se você num tocar músicas lá de nossa terra lá, eu num vou mais colocar dinheiro aí no seu pires!”. Tio Gonzaga começou a matutar, a lembrar de algumas coisas daqui, teve até uma música chamada “Pé-de-Serra”, que é solada. Quando de repente, os universitários estavam lá cobrando, e ele puxou um forrozinho pé-de-serra, e começou todo mundo, aquele alvoroço, ali dentro da boate, vendo um som diferente, um ritmo diferente, alegre, disseram: “E quem está tocando isso aí?”, “É Gonzaga, está ali, ó!!”, “Mas ele toca isso? Mas rapaz da onde é isso?” num sei-o-quê, aquela especulação. Alguns músicos, maestros, alguns locutores de rádio, começaram a puxar Luiz Gonzaga pra rádio, pra algum teatro, justamente pra: “Ó, você vai tocar aquele forró seu lá!! Aquele solozinho!!”, “Não, aquele forrozinho lá do pé-de-serra?”, “Sim, é aquele lá que a gente quer!!”. Foi ai que Luiz Gonzaga começou a crescer e surgiu aí o Pé-de-Serra, divulgado por Luiz Gonzaga, e aqueles artistas que “teve” Luiz Gonzaga como referência, os forrozerios, sanfoneiros, também passaram a tocar essas músicas e dizer: “Ah!! Vou tocar aqui um forrozinho pé-de-serra, um forrozinho pé-de-serra do Gonzagão” e tal, e assim nasceu o apelido forró pé-de-serra. Que hoje no sul, tão dizendo que é forró universitário, mas eu não concordo com isso, eu acho que tem que ser o seguinte, forró pé-de-serra tocado pelos universitários, aí sim, ai eu concordo, agora, forró universitário, eu acho que não. Eles, realmente, são quem tocam o nosso forró pé-de-serra, pessoal novo tal, mas... E assim surgiu o nosso forró pé-de-serra, usado até hoje. E eu fiz essa homenagem: “Sanfoneiro da Serra do Araripe”, porque foi aqui na serra do Araripe onde nasceu nosso forró pé-de-serra. Por isso eu fiz, com a participação de Flávio Leandro, que é um compositor que está aparecendo aqui, e em breve vai ser nacional. E temos aqui também João Silva, que foi um dos parceiros de Luiz Gonzaga, que gravou mais músicas com Luiz Gonzaga, além de Humberto Teixeira e Zé Dantas. Temos aqui uma apresentação, a apresentação é meu Tio quem faz, que foi justamente um amigo meu que gravou na Missa do Vaqueiro, eu e Tio Gonzaga em 88, nós fomos fazer a Missa do Vaqueiro em Serrita, e ele me apresentou, falou sobre mim, apresentou ao povo pra gente cantar uma música junto. Um amigo meu gravou, e eu peguei e botei aqui pra ele me apresentar, ficou até interessante. E eu toco aqui um pé-de-bode, que é o ronco de 8 baixos, e assim está meu CD aí, forró pé-de-serra mesmo!

Joquinha Gonzaga, descontração durante a entrevista.
Joquinha Gonzaga, descontração durante a entrevista.


ReidoBaiao.Com.Br – De que falam as suas músicas, se tem alguma marca registrada, se segue uma linha de musicalidade?
Joquinha Gonzaga – Eu não tenho assim, uma marca registrada não! Por eu ter uma influência de Tio Gonzaga, por ser parente, por ter tocado com ele e tal, eu procuro manter aquela tradição. Mas tudo é cantando o nosso povo, a nossa região, nossa gente, o sofrimento, a alegria, a mulher. Eu cantei muita mulher, já cantei (risos) até umas músicas que tem algumas mulheres que não gostam, já cantei a lavadeira, (cantarola) “A Lavadeira do norte, para ganhar a vida, faz coisas que até Deus duvida, e quase ninguém dá valor. Ela é pra mesa é pra cozinha, ela é pro tanque, pro quarador...”, quer dizer, algumas mulheres gostaram, outras não. “Tudo dela é Miudinho”, que é aquela mulher miudinha, que quando namora sobe numa pedra ou num tamborete, e na hora tudo fica grande, que não existe esse negócio, fechou o olho tudo fica grande! Então a mulher pode ser miudinha. Eu sempre estou cantando algumas coisas nossa, sem magoar ninguém, às vezes com um duplo sentido, mas muito saudável, que todo mundo pode escutar, não apelando, e procurando manter a nossa tradição que é a sanfona, a verdadeira sanfona, o zabumba e o triângulo, e o nosso sotaque nordestino que é a identidade do nosso povão, que é um “pipaco**” danado, que num é qualquer um que canta forró. Então, por mais que o cara seja um grande cantor, na hora que chega no forró, aí tem que ser um kilo certinho, (gargalhadas) se não tiver um kilo certinho ai fica ruim!!!

ReidoBaiao.Com.Br – Já que você está no meio artístico, um grande artista aqui de nossa região, qual o seu objetivo como sanfoneiro, e o que o forró significa em sua vida?
Joquinha Gonzaga – Olha, meu objetivo como sanfoneiro é continuar como sanfoneiro, porque num tem mais jeito, parar é uma confusão, então eu tenho que ir em frente. Eu procuro sempre fazer meus trabalhos até minha vida final. Estão aparecendo grandes sanfoneiros por aí, outros estilos, tocando bonito, bem, por sinal a nossa região está com uma safra muito boa, e eu estou ai tentando passar pra essas pessoas a minha experiência, e ensinar a garotada a maneira de tocar, e incentivar tocar nosso forró. E o que o forró e a sanfona significam para mim? É tudo, é minha profissão, minha vida, minha terapia, minha história, que por sinal acho muito bonita, me orgulho muito, então eu tenho mais é que conservar e manter. Porque eu fui uma pessoa que fui educado por uma família que teve sempre alegria, e o dia-a-dia sempre no meio da música, sempre tocando zabumba, sanfona, triângulo, então essa minha família é uma família que me deu essa educação, e em especial Tio Gonzaga que me deu uma educação musical, educação de família também. Tio Gonzaga, além de ser uma pessoa que me ensinou algumas coisas na música, também me educou, porque ele quando viajava comigo ele sentia aquele cuidado, como filho mesmo. Então hoje eu tenho minha educação musical, como pessoa, de Luiz Gonzaga, minha mãe, meu pai, graças a Deus, eu tenho esse orgulho, e procuro fazer com os outros também, e prosseguir com essa história, incentivando, educando também, e procurando fazer o melhor possível para o nosso forró pé-de-serra, pra sanfona, pra nossa tradição, pra nossa cultura. Minha parte eu estou fazendo, tentando puxar algumas pessoas, e ensinar algumas pessoas, porque nossa cultura é uma cultura rica, e Tio Gonzaga deixou uma lição muito bonita. É uma pessoa que todo mundo, quando se fala em Luiz Gonzaga, há um respeito, uma admiração. Luiz Gonzaga que foi o Pernambucano do Século, Luiz Gonzaga que tem o Título de Rei do Baião, que todos os músicos tem aquele respeito por ele, todos os músicos, sempre têm Luiz Gonzaga como referência. Pode ser o maior artista, sempre diz: “Não, quando eu era pequeno eu escutava Luiz Gonzaga”, quer dizer, Luiz Gonzaga sempre está no meio desse pessoal. E eu como sobrinho, sou até suspeito de falar, eu me orgulho, aonde eu estou, por onde eu estiver, que alguém fala de Luiz Gonzaga, eu fico todo orgulhoso, (gargalhadas), então eu acho que é bonito, é bonito!

ReidoBaiao.Com.Br – Em vários trabalhos seus, até música você já fez sobre o Açude do Itamaragy. Qual a sua relação com esse açude ou o que motivou você a compor essas músicas?
Joquinha Gonzaga – Essa história começou com Gonzaguinha. Quando Tio Gonzaga morreu em 89, Gonzaguinha desenvolveu, aqui, um projeto, pra dar continuidade à história de Tio Gonzaga, aqui no museu. Então, ele se juntou a mim, a meu irmão Piloto. Ele ficava aqui o tempo todo, bolando algumas coisas, num sei-o-quê. Um dos projetos era fazer um trabalho, um forró, eu e o Gonzaguinha, em homenagem a Luiz Gonzaga, e mostrar nossa tradição, e ele começou a fazer música, e uma das músicas que ele fez foi o “Espelho das Águas do Itamaragy”, justamente porque ele estava se preocupando com a construção de umas casas populares, que na época estava começando os alicerces. Era acima do Açude do Itamaragy, e ele se preocupou porque o Açude do Itamaragy sempre alimentou o povo de Exu, entendeu? Serviu pra lavar roupa, pra tomar banho. Então, por a gente ter dificuldade com água, as carroças apanhavam água, os carroceiros sobrevivendo de apanhar água aí. E a água sempre era preservada, e tinha gente até que bebia, então quando começou essas casas ai, ele se preocupou, porque quando chove as águas vêm de lá de cima e poderia vir “troços”, num sei-o-quê, e é justamente isso, hoje, que está acontecendo. Então ele fez o “Espelho das Águas do Itamaragy”, que ele me deu pra fazer o arranjo. Infelizmente ele não pode nem ver o arranjo que eu fiz, ele viajou e houve aquele desastre. Eu peguei e gravei. O povo de Exu, quando subo no palco, se eu não cantar essa música, nêgo pede, grita, que é uma música muito bonita, uma mensagem muito bonita. Por sinal, a gente tem que recomeçar, porque a gente tem um objetivo, uma vontade que as águas do Itamaragy sejam preservadas. Então a gente tem que procurar lutar por isso, pra manter viva essa história, que era o sonho de Gonzaguinha! Eu acho que Tio Gonzaga, se fosse vivo, também estava danado, porque foi Tio Gonzaga que... Isso aí era de Tio Gonzaga, ele cedeu à Prefeitura pra o povo ficar usando. Se Tio Gonzaga fosse vivo, ele num estava achando nada bom. Já tinha feito muita confusão, mas a gente vai tentar defender ai, junto com o povo.

Joquinha Gonzaga, sua esposa Nice e sua filha caçula

 Joquinha Gonzaga, sua esposa Nice e sua filha caçula.


ReidoBaiao.Com.Br – Na sua opinião, o povo Exuense é conhecedor da Cultura Gonzagueana?
Joquinha Gonzaga – O que eu vou falar é um pouco meio triste, mas a gente também... A verdade sempre é bom! É o seguinte, eu nasci e me criei, no Rio de Janeiro, sangue nordestino, filho de uma irmã de Luiz Gonzaga, a Muniz, Dona Muniz, o apelido dela, e eu convivi, claro, com Tio Gonzaga, com as opiniões dele, sempre conversava, a gente viajando, e a gente fica triste pelo seguinte, que Tio Gonzaga já falava alguma coisa sobre isso, que o povo não prestigiava muito o trabalho dele. Luiz Gonzaga foi uma pessoa que sempre fez muito pelo Exu, fez muito, mais muito mesmo. Uma pessoa, que se fosse outra, não fazia nada aqui em Exu. Às vezes nem viria aqui em Exu. Mas Tio Gonzaga não, Tio Gonzaga fez o contrário, ele sempre vinha a Exu, e tudo que ele ganhou, ele fez aqui em Exu, e a gente, a família, sempre falava: “Mas o que Gonzaga vai fazer lá?”. Principalmente porque, na época, tinha briga aqui, e ele ficava muito triste, tentava apaziguar, puxava, aconselhava. Tio Gonzaga foi uma pessoa também, que não foi político, mas ele conseguia muito mais coisas pra Exu do que os políticos. Porque ele tinha facilidade pra falar com o Presidente da República, com o Governador, com os Deputados, com o Prefeito, pra trazer pra Exu. Infelizmente ninguém em Exu, por não aceitar algumas coisas, por Tio Gonzaga ser uma pessoa forte, que eu acho isso uma ignorância, poderia ter explorado mais Tio Gonzaga, e o povo de Exu estava com muito mais vantagem, mas infelizmente, tudo que Tio Gonzaga fez foi sozinho, sem o apoio de ninguém. A estrada, as escolas, antena parabólica, imagem de televisão, telefone, tudo isso Tio Gonzaga gostou sempre de mexer com os pauzinhos, pedindo a políticos pra trazer. E infelizmente nunca teve muita gente ao lado de Tio Gonzaga, pelo contrário, sempre tinha aquele negócio de dizer: “Pra que ele vai trazer isso?”, “Pra que ele vai fazer isso?”, “Aqui num deveria fazer isso não, quem tem que fazer isso é fulano, é sicrano”. Então Tio Gonzaga sofreu muito com isso. Tem muitas pessoas aqui que gostam de Tio Gonzaga, que gostam demais, admiram demais, mas infelizmente tem aqui, a maioria, que não prestigia Luiz Gonzaga. E hoje eu fico triste! E amigos meus, eu digo isso porque eu vivo no meio e vejo amigos meus, que vêm de fora, e eu também presenciando, até as nossas rádios aqui, pra tocar Luiz Gonzaga é um sacrifício, pra tocar música de artista da terra, tem que está em cima, a gente tem que está reclamando, falando, e eles num gostam não. E eu me lembro que uma das histórias engraçadas, quando a gente faz festa aqui em dezembro, fãs de Luiz Gonzaga vêm, e teve um amigo meu que pegou, sem saber de nada, passou um ano todo gastando dinheiro pra montar um carro de som no carro dele, que hoje tão usando muito, e disse: “Olha, quando eu for agora em Exu, vou só tocando música de Gonzagão. O povo de Exu vai achar um barato”, e lá vem ele, quando chegou ai, entrou na cidade com um som, botou no restaurante, ele encostou “e tá”, música de Luiz Gonzaga. De vez em quando chegava um otário, pessoas desinformadas, pessoas, pra mim, que não têm conhecimento, pessoas leigas, daqui de Exu, e chegavam pro cara e diziam: “Ei, num tem outra música ai não, bicho?”, “Ei, mas por que você esta fazendo palhaçada? Só bota Gonzagão!!”, o cara ficou decepcionado, ficou triste, chegou pra mim falando: “Mas é mesmo? O pessoal aqui num gosta não Joquinha?”, ai eu disse: “Rapaz o pior é que não gosta não”. E teve muitas histórias assim. Então, eu já escutei muitas histórias, e eu infelizmente, fico triste com isso, porque eu fico com medo dos Jovens, a gente, mais velhos, as autoridades, têm que se preocupar com isso e fazer com que os jovens se liguem na história de Luiz Gonzaga. O que ele foi aqui em Exu? O que ele fez por Exu? O que ele deixou de riqueza aqui pro Exu, pro povo de Exu? Pois hoje nós sabemos que, queira ou não queira, tem que engolir, que Exu é conhecido por causa de Luiz Gonzaga, e Luiz Gonzaga é conhecido por causa de Exu. Então, eu acho, que a gente vai ver se reverte essa história, e tenta mostrar o forró pé-de-serra para os jovens daqui e puxar, orientando, ensinando. Mas Exu, infelizmente, está longe de reconhecer que Luiz Gonzaga foi um grande!

ReidoBaiao.Com.Br – Na condição de presidente da Fundação Vovô Januário, quais os objetivos da Fundação e os projetos que ela está desenvolvendo?
Joquinha Gonzaga – O Objetivo da Fundação Vovô Januário é ajudar as pessoas pobres, em especial as roceiras, isso foi fundado por Tio Gonzaga. Quem fez essa fundação foi Tio Gonzaga. Então, é por aquelas pessoas necessitadas, que vêm dos sítios aqui pra cidade e não tem condições de dormir, de comer, se alimentar. Então a Fundação Vovô Januário tem esse objetivo, de dá apoio. E ela esteve parada uma porção de tempo, sem condições, como está sem condições ainda, e a gente esta tentando agora recomeçar. Então eu, como presidente, Reginaldo, como vice-presidente, que Reginaldo teve a ver com a história de Luiz Gonzaga, a gente está trabalhando para melhorar e tentar fazer algo por esse povo. Porque, esse tempo todo que está parada, ela é uma fundação que tem sua sede própria, uma estrutura, e nós estamos tentando pedir ajuda através algumas pessoas, e estamos recomeçando, estamos vendo os documentos, estamos esperando inclusive o resultado do CNPJ. A gente vai tentar reativar essa fundação e ajudar essas pessoas. Tem um grupo muito bom, que está com vontade de trabalhar, de fazer alguma coisa, e eu vou aproveitar essa força de vontade desse pessoal.

ReidoBaiao.Com.Br – E o lado cultural, vocês pretendem trabalhar também?
Joquinha Gonzaga – Também, porque há uma ligação, e a própria música vai ajudar a Fundação Vovô Januário. A gente pode tocar, fazer festa pra angariar dinheiro, fazer o possível para ficar ligado a Fundação Vovô Januário com a Cultura Gonzagueana.

ReidoBaiao.Com.Br – Depois de tanto tempo da morte de seu Tio, Luiz Gonzaga, como está a saudade?
Joquinha Gonzaga – A saudade é grande, porque eu sonho com Luiz Gonzaga, amanheço o dia pensando em meu Tio, porque o meu Tio, ele era tudo pra nossa família, num era só pra mim, era pra nossa família, porque na hora das dificuldades sempre era Tio Gonzaga que tava presente, principalmente, em especial, financeira. Tio Gonzaga, por gostar muito de ajudar, a gente só ligava pra ele, e pedia ajuda. Quantas vezes Tio Gonzaga socorreu a gente, a família, doenças, carro, moradia, pra ajudar em algum material pra profissão, escola. Então, Tio Gonzaga era o esteio de toda família, pras irmãs e para os sobrinhos. E hoje eu, por exemplo, em especial, como já disse antes, eu pensava que Tio Gonzaga nunca ia morrer. Então, pra mim era uma força... Eu nunca olhava pra o pior, sempre olhava para o bom, Tio Gonzaga sempre presente, e aonde ele ia, que a gente chegava, a gente se sentia firme, forte, e quando Tio Gonzaga morreu, desmoronou tudo. Até hoje, a gente... É como se fosse ontem, a gente sente a morte de Tio Gonzaga, e eu até evito um pouco de ficar pensando, às vezes, até no palco, quando eu toco, os fãs de Luiz Gonzaga chegam pra mim e falam alguma coisa, perguntam alguma coisa, e alguns fãs, que teve aproximação a Luiz Gonzaga, que aconteceu uma coisa interessante que eles contam, tem fãs que choram, então aquilo ali, pra mim também, mexe com meu sentimento. Então Tio Gonzaga me deixou saudade e até hoje deixa saudade. Mas a gente vai matando essa saudade tocando as músicas dele e cantando as músicas deles e contando as histórias dele, isso aí fortalece a gente.

ReidoBaiao.Com.Br – Qual o momento mais marcante na sua carreira?
Joquinha Gonzaga – O que marcou pra mim, em minha carreira, foi a primeira vez, em 85, quando Tio Gonzaga gravou a minha primeira música. Eu torcia pra danar, pra Tio Gonzaga gravar, eu fiz juntamente com João Silva, uma música chamada “Amei à toa” (cantarola). Eu me lembro que tinham 14 músicas pra serem escolhidas e a minha estava no meio. De repente escolheram umas 11 ou 12, a minha estava pra entrar, entra num entra, entra num entra, aí Tio Gonzaga botou a minha. Minha música! Aquilo pra mim foi um orgulho, Tio Gonzaga cantar uma música minha, que eu tocava, que eu fiz! E a outra foi quando eu participei em 88 do disco dele, cantando junto com ele, uma música chamada “Dá Licença Pra Mais Um” (cantarola), essa música também foi muito bom, foi bom demais! Mas também, eu passei um aperto, quando eu vi aquele vozeirão dentro do estúdio cantando, quando entrava a minha, “Avé Maria! Eita diferença, pé-quebrado!”. A minha pequenininha, o vozeirão de Tio Gonzaga, mas eu enfrentei, fui lá (risos). Foi uma música que tocou muito no Nordeste, foi uma alegria enorme e um sonho realizado. Hoje eu posso dizer a todo mundo, se alguém chegar me xingado, eu digo: “Rapaz, você tocou com o Gonzagão?” Ai ele: “Não”, “Pois eu cantei!”, está resolvido, estou levando vantagem! (risos).

Na ordem: Thomas Jefferson, Joquinha Gonzaga e Cícero Jammeson
Na ordem: Thomas Jefferson, Joquinha Gonzaga e Cícero Jammeson.


ReidoBaiao.Com.Br – O que você acha do novo projeto do site ReidoBaiao.Com.Br, de divulgar a Cultura Gonzagueana e a Cidade do Rei do Baião?
Joquinha Gonzaga – Eu acho isso bonito porque vocês são daqui de Exu, já começa o negócio ser diferente pra mim, porque o pessoal de Exu, algumas pessoas, você sabe, como eu já contei, não dão muito valor. E vocês estão dando valor, estão indo fundo na história de Luiz Gonzaga, estão dando exemplo, isso é bom, porque vão puxar os outros. Então, vai ter muita gente que vão olhar pra vocês e vão dizer: “Rapaz, os homens estão correndo aí com Luiz Gonzaga, então vamos correr atrás deles!”. Eu achei que vocês tiveram uma iniciativa muito boa, que vai mostrar para o Brasil e para o Mundo a nossa terra, nossos lugares pitorescos, os sítios, nosso pé-de-serra, nossos artistas. Eu estou aí também, agora você tem que ver aí. Eu não sei falar inglês, mas vê se escreve em inglês aí, porque eu acho que a gente vai ao mundo (risos). Então, eu tenho certeza, que as pessoas que se interessarem pelo Rei do Baião, quando vier de fora pra cá, já sabe praticamente tudo, já sabe até como é o lugar, porque ele está vendo pelo retrato. Ele vai chegar aqui já sabendo. Só falta vocês colocarem um caminzinho pra onde tem que ir, pra onde é “O Cantarino”, aonde é o “Museu Gonzagão”, onde é “Tabocas”, “Zé Gomes”, esses lugares assim que vocês, tenho certeza, vão botar no site. Então, as pessoas já vão saber até pra onde vai, já vem até ensinando a gente, vão dizer: “Eu vim aqui pra ir em tal lugar”, “Eu vim aqui pra ver Joquinha Gonzaga”, “Eu vim aqui pra ver a história de Luiz Gonzaga”. Então, parabéns pra vocês, pela iniciativa, e se depender de mim, contem comigo pra qualquer coisa, eu tenho certeza que a gente vai se dar bem.

*briboca: lugar escondido; distante.
**pipaco: estouro; difícil de falar.

Entrevista: Cícero Jammeson.
Fotos: Thomas Jefferson.
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