
A Morte Calou Gonzaga, Não Cala o Rei do Baião
Autor: Júnior do Bode
I
Bem cedo ganhou o mundo
Feito cancão vagabundo
Galopando sobre o vento
Buscando conhecimento
Musicou nosso sertão
Sintetizando então
A mais fabulosa saga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
II
Se lançou no mar feroz
Do sonoro preconceito
Levando o fole no peito
Rasgando o vento com a voz
RADIO BRÁS primeira foz
Do Riacho Gonzagão
Corrente que o coração
Quando molha se embriaga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
III
Seu Luiz fez um reinado
Um concreto apogeu
Duvidando, no museu
Você conhece o passado
De corneteiro soldado
A sósia de Lampião
Não o vejo no gibão
Mas a voz ainda vaga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
IV
Tem a Morte do Vaqueiro,
Sabiá, Cintura Fina,
Assum Preto, Karolina,
Xanduzinha, Boiadeiro,
Vem Morena, Juazeiro,
Ceará Tem Disso Não,
Asa Branca e Algodão
o tempo jamais apaga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
V
O maior gladiador
Das batalhas musicais
De cem mil guerras ou mais
Ele foi o vencedor
Venceu cantando o amor
Na arena da canção
Armadura é o gibão
A sanfona uma adaga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
VI
No cume do Evereste
Após subir, eu liguei
Um radinho e escutei
As canções do meu Nordeste
Atrás de mim nesse teste
Ao vencer a elevação
Um velha do Japão
Escutando o rádio indaga:
- A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
VII
Do Olimpo o mensageiro
Hermes veio falar
Disse: - A morte quer calar
Um querido sanfoneiro
A mando do encrenqueiro
Deus do inferno, Plutão.
- Hermes, cesse a afobação!
Se tiver mais morte traga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
VIII
No Exu ele nasceu
Dia treze de dezembro
Eu estava lá e lembro
Que o seu pai era Orfeu
Dona Euterpe a luz lhe deu
Quando varria o oitão
Quem mais viu foi um cancão
E uma vaca véia maga.
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
IX
Enxerida, egoísta,
Ladina e traiçoeira
É a morte presepeira
Cumprindo a negra lista
Tentou levar um artista
Para deixar aflição
Levou corpo e não
O espírito que afaga
A morte calou Gonzaga
Não cala o Rei do Baião.
Olinda, 23 de Outubro de 2004
Júnior do Bode é natural de Exu-PE e da Serra do Araripe, cordelista e declamador.
Contato: jrdobode@ig.com.br